Porque você (não) deve criar uma universidade corporativa12 min read

Você já deve ter conhecido alguma, mesmo feito uma visita técnica, ou quem sabe na sua organização há uma UC (Universidade Corporativa), não é mesmo?

universidade-corporativaUniversidade Corporativa no Brasil
 Especificamente no Brasil passamos a contar com este sistema de educação corporativa, a partir dos anos 1990, quando grandes corporações como a Accor, já em 1992, estabeleceu por aqui a sua Academia Accor. Tal iniciativa foi acompanhada pela Universidade Martins do Varejo (1994), a Universidade Brahma (1995) e também a Universidade do Hambuger – McDonald´s (1997).
Universidade Corporativa e Sistema de Educação Corporativa

OK, vamos, antes de qualquer coisa, dizer porque nos referimos à sistema de educação corporativa. Por que estamos dizendo que a universidade corporativa é um sistema de educação?

 Podemos considerar que uma UC (Universidade Corporativa) é um sistema de educação corporativa, pois pode ser comparada, guardadas as devidas proporções e características próprias, com o que o dicionário da língua portuguesa nos traz como significado da palavra sistema:

Sistema (do grego systema): conjunto de princípios verdadeiros ou falsos, donde se deduzem conclusões coordenadas entre si, sobre as quais se estabelece uma doutrina, opinião ou teoria. (Michaelis, 2015).

Ficou claro para você porque consideramos a UC um sistema de educação corporativa?
Universidade Corporativa: Novo Paradigma

Perceba que verdadeiramente a UC pretende implementar um novo paradigma, ou seja, um novo modelo ou um novo conjunto de princípios, que, coordenados entre si, devem estabelecer uma nova doutrina, uma nova teoria, naturalmente com resultados diferentes.

Para exemplificar essa mudança de paradigma veja o que nos trazem as professoras MEISTER e EBOLI no quadro que apresentamos abaixo.

Muito bem, até aqui tudo muito legal, tudo muito bonito, não é mesmo?

De qualquer forma, a questão central deste nosso artigo é discutir com relação à relevância ou não de você estruturar uma UC na sua organização e então vamos partir para isso.

Vejamos algumas razões, em primeiro lugar, para você NÃO ter o trabalho de investir na estruturação de uma UC na sua organização.

1. Você quer diminuir custos com T&D:

Não me parece que você vai ter realmente uma diminuição de custos com treinamento e desenvolvimento de pessoas, sejam elas funcionários seus, seus colaboradores ou clientes, em especial num primeiro momento.

Por quê?

Você necessita mudar a cultura das pessoas envolvidas, precisa investir em infraestrutura, tecnologia, dentre tantas outras questões que, ao menos nos primeiros meses irão frustrar totalmente a sua ideia, se ela estiver baseada unicamente em diminuir custos.

2.  Você quer ter menos pessoas cuidando da área de T&D: 

Bem, creio que nem precisamos nos alongar muito nesta questão, não lhe parece? Basta rever o quadro onde apresentamos as mudanças de paradigma necessárias e você logo chegará às mesmas conclusões que eu, ou seja, não faz sentido diminuir a sua equipe de T&D. Na verdade, você vai mesmo é ter que envolver mais pessoas, não necessariamente dessa área específica, mas de toda a empresa.

3. Você quer terceirizar a responsabilidade pelo treinamento e desenvolvimento das suas equipes: 

Outro erro grave de planejamento, pois a UC não foi planejada para que você se livre da responsabilidade de ter que treinar as pessoas ligadas à sua organização.

 A bem da verdade este sistema lhe diz que você precisa envolver todas as pessoas ligadas à sua cadeia de valor, ou seja, clientes, fornecedores, funcionários e a própria sociedade.
4. Você quer ter apenas treinamentos virtuais e vai criar uma Universidade Corporativa Virtual: 

Creio que você inteligente como é, já se deu conta que não pode existir uma universidade corporativa que seja 100% virtual, a não ser que os seus relacionamentos com clientes, fornecedores, parceiros e a sociedade seja 100% virtuais.

Por que dizemos isso?

Perceba que UC não é sinônimo de portal educacional, de sala de aula virtual, mas vai muito além, pois deve incluir a capacitação informal, os relacionamentos sociais, que geram conhecimento, aqueles conhecimentos que são gerados no local de trabalho. Tudo isso não pode ser feito num espaço 100% virtual, a não ser que a sua empresa e seus relacionamentos com todas as partes interessadas sejam 100% virtuais, como já dissemos antes.

5. Você não quer investir em tecnologia da informação e comunicação e vai terceirizar toda sua área de TI: 

Esta iniciativa até parece ser bastante válida, caso seja uma estratégia pensada para o seu negócio. O fato é que você não precisa criar uma UC para tornar esta estratégia atrativa para possíveis parceiros de negócios.

Contudo, caso você crie efetivamente tal sistema de educação corporativa na sua organização, por favor, não esqueça que a TIC (tecnologia da informação e comunicação) é uma parte vital para o seu bom funcionamento, em especial no século XXI.

Agora, que tal a gente pensar em fatores que nos levam a planejar a estruturação de uma UC na nossa organização?

Então, quando você deve SIM pensar em tal sistema de educação corporativa?

1. Você quer gerar diferenciais estratégicos para a sua organização: 

Analise comigo, por favor, a seguinte citação de Peter Drucker: “Não seremos limitados pela informação que temos. Seremos limitados por nossa habilidade de processar esta informação.”

Assim, não lhe parece que, mesmo sem analisar de forma mais profunda tal sistema de educação corporativa, podemos concluir que seremos capazes de ajudar, e muito, nossos clientes, fornecedores, colaboradores e sociedade a compreender melhor nossos objetivos estratégicos, desenvolver melhores produtos, saber por que as pessoas devem comprar da sua empresa, etc.?

Creio que apenas este fator já deve ser um diferencial competitivo para você e a sua organização.

2. Você quer efetivamente desenvolver pessoas para o presente e para o futuro: 

Caso você não lembre, vamos retomar aqui o conceito mais aceito de competência, a qual é formada pelo conjunto de Conhecimento + Habilidade + Atitude das pessoas que estão direta ou indiretamente ligadas a você. Com isso, que tal ter um sistema organizado e coordenado para desenvolver competências para as suas necessidades atuais e futuras?

Tudo isso você encontra no conceito de UC.

3. Você quer gerir o conhecimento organizacional de forma eficaz: 

Você, a exemplo da grande maioria das empresas, já deve ter passado pela seguinte situação: um ou mais funcionários com muitos anos de casa precisam se afastar da empresa por um período limitado, ou mesmo em definitivo, e os seus processos produtivos sofrem um grande baque.

Como você pode evitar que simplesmente todas aquelas competências desenvolvidas por você e a sua organização durante anos simplesmente “vá embora” da noite para o dia?

Mais uma bela razão para você investir num processo racional, organizado e sistematizado para preparar pessoas.

4. Você quer envolver todas as partes interessadas da sua cadeia de valor:

Perceba que você apenas terá verdadeiramente uma UC quando envolver todas as partes interessadas da sua cadeia de valor. Já falamos sobre isso anteriormente, mas não custa ressaltar novamente, quais sejam: funcionários, clientes, sociedade, fornecedores, etc., ou seja, todos aqueles que de uma forma ou outra estão direta ou indiretamente envolvidos com algum processo da sua organização, ou ao menos sofrem a sua influência.

Assim, nada mais óbvio concluir que sim uma UC pode lhe ajudar a envolver de forma efetiva todas as partes interessadas da sua cadeia de valor.

5. Você precisa multiplicar as suas lideranças que estejam alinhadas aos seus objetivos estratégicos: 

Por favor, não cometa o erro de achar que a criação de sua UC será unicamente para os seus líderes, mas também para eles.

Na verdade o que você necessita é de estrategistas de educação corporativa, ou seja, pessoas que tenham a competência de compreender de forma profunda seus objetivos estratégicos ao mesmo tempo em que mapeiam as necessidades das pessoas que são necessárias para atingir tais objetivos e com base nos gaps, ou pontos que precisam ser mantidos como diferenciais competitivos, geram programas de educação corporativa para o presente e o futuro da sua organização.

Naturalmente, tais programas de educação são suportados de forma natural dentro de uma UC. Como resultado esperado, você já deve ter se dado conta disso, é ter líderes e equipes com capacidade para se adaptar às mudanças constantes nas condições que se apresentarem na economia, política ou mesmo financeiras e ajustar seus procedimentos para que os objetivos estratégicos sejam atingidos com a maior brevidade possível.

6. Você quer perpetuar a sua organização: 

A não ser que você deseje que a sua empresa funcione somente enquanto você estiver presente nela, imagino que deva planejar sua sucessão e formas de não torná-la tão dependente das suas competências, exclusivamente.

Pensando nisso, você já compreendeu que uma UC pode lhe ajudar definitivamente nesta missão, não é mesmo? Não há necessidade de falar mais nada.

7. Você quer gerar ter inovação no DNA da organização:

O mundo ideal das organizações passa por um processo de constantes inovações, que sempre dão ótimos resultados e que lhes diferenciam no mercado consumidor.

Contudo, não precisamos aqui nos delongar, o processo de inovação passa pelos conhecimentos, pelas habilidades e pelas atitudes das pessoas.

Com isso, qual é o melhor lugar para desenvolver as competências das pessoas, que de alguma forma irão contribuir para o processo de inovação continuada da organização senão a UC?

Pois bem, poderia listar aqui pelo menos mais uma série de razões para você investir num sistema de educação corporativa, mas confio na sua astúcia de ter percebido se faz sentido para você ou não tal sistema.

De qualquer forma, caso você necessite de argumentos para convencer seus pares ou líderes com relação à eficácia ou não de ter um sistema de educação corporativa baseado numa UC, veja aqui mais algumas considerações:
  • “O conhecimento torna-se obsoleto a cada cinco ou 10 anos.” (SOUZA, 2010).

  • “Observa-se, também, que a volatilidade do conhecimento e da informação se acentuou na primeira década dos anos 2000, devendo-se acentuar cada vez mais no futuro. As pessoas se sentem desorientadas com esta volatilidade, sem saber como pensar seu desenvolvimento e como filtrar a enorme quantidade de conhecimentos e informações ao seu dispor.” (DUTRA e COMINI, 2010).

  • Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em 1999, já destacava que mais de 55% da riqueza gerada no mundo veio do conhecimento. Pela primeira vez na história da humanidade, os fatores de produção tradicionais (terra, capital, trabalho e matéria prima) deixaram de ser os principais criadores de riqueza. (SALVADOR, 2015).

  • Falar de era do conhecimento, sociedade do conhecimento ou mesmo achar que a gestão do conhecimento pode ser descrita como uma receita de bolo, onde existe um passo a passo claro e único para chegarmos a um resultado, sem nos atermos às bases do que é o conhecimento, não nos parece viável. (SALVADOR, 2015).

  • […] conhecimento é o conjunto total incluindo cognição e habilidades que os indivíduos utilizam para resolver problemas. Ele inclui tanto a teoria quanto a prática, as regras do dia a dia e as instruções sobre como agir. O conhecimento baseia-se em dados e informações, mas, ao contrário deles, está sempre ligado a pessoas. Ele é construído por indivíduos e representa suas crenças sobre relacionamentos causais. (ALMEIDA, FREITAS e SOUZA, 2011).

  • Educação corporativa “pode ser definida como uma prática coordenada de gestão de pessoas e de gestão do conhecimento tendo como orientação a estratégia de longo prazo de uma organização.” (Citação no sítio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil).

  • “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo.” Paulo Freire.

Puxa vida, agora já chega de reflexões, não é mesmo?

Tire você mesmo as próprias conclusões e tome as melhores decisões a respeito do assunto, mas perceba que você não precisa fazer algo complexo para ter uma Universidade Corporativa na sua organização.

Aliás, o mais complicado é fazer algo simples, funcional e realmente eficaz. Nós aqui na empresa defendemos a teoria de que você não precisa começar sua estruturação de uma Universidade Corporativa por uma estrutura grandíssima, com muitos recursos envolvidos, caso isso não seja efetivamente estratégico e calculado.

Nós defendemos a ideia de que você pode começar com algo mais focado, direcionado, não necessariamente pequeno, mas algo que possa lhe dar resultados mais ágeis. Por isso, compreendemos que uma das formas de você estruturar a sua Universidade Corporativa passa por criar academias corporativas, que unidas irão formar a estrutura completa da sua UC.

Assim, você pode ter sua Academia de Vendas, Academia de Líderes, Academia de Inovação, etc. e tal, o mais importante não é a denominação delas, mas sim você ter claro onde você quer chegar, como você vai chegar lá e com que recursos você precisará contar para tal.

Aliás, você pode ver mais sobre isso no nosso artigo denominado 10 razões para investir em pessoas e conhecimento em tempos de crise.

Por favor, não hesite em entrar em contato conosco caso queira trocar ideias sobre este tema e outros relacionados, pois é desta forma que transformamos dados em informações, informações em conhecimento e este conhecimento em competências!
Referências bibliográficas: 

ALMEIDA, Mário de Souza; FREITAS, Claudia Regina; SOUZA, Irineu Manoel. Gestão do Conhecimento para tomada de Decisão. São Paulo: Atlas, 2011.

EBOLI, Marisa. et al. Educação Corporativa: Fundamentos, evolução e implantação de projetos. São Paulo: Atlas, 2010.

SALVADOR, Jocelito André. Como se diferenciar na era do conhecimento: princípios do conhecimento e da educação corporativa. Caxias do Sul: 2015.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=sistema

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